Diário

Crônica/Perfil Literário

As maçãs que rolaram ladeira abaixo

Entre memórias perdidas e raízes quebradas, dois estudantes preservam histórias moldadas pelo tempo e pela diáspora

A maçã não cai longe da árvore. Esse ditado costuma ser usado para explicar, sem esforço, as semelhanças familiares de alguém. Mas ele falha diante de histórias marcadas pela diáspora, pela violência e pela ruptura das raízes. O que acontece quando uma maçã cai, ou é forçada, para longe da sombra de sua árvore?

Um keffieyh está enrolado no pescoço, uma camiseta branca com a bandeira da Palestina estampada no peito. Seu nome é Mansour Salum, mas já foi Jorge William. (Foto por Eduarda Duarte)

Cerca de seis ativistas estendem a bandeira da Palestina sobre um gramado. Um homem sobe no palanque e começa a falar. Um keffieyh está enrolado no pescoço, uma camiseta branca com a bandeira da Palestina estampada no peito. Seu nome é Mansour Salum, mas já foi Jorge William.

O discurso aconteceu na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), durante o Festival Estudantes Contra Guerras. Alguns dias depois nos encontramos novamente, desta vez em outro cenário. A bandeira da Palestina na grama foi substituída por uma mesa de madeira com pilhas de revistas velhas, o palanque, por uma sala pequena e empoeirada, era a hemeroteca do Departamento de Jornalismo da UFSC.

Mansour disse que ao onze anos descobriu que foi adotado. O agravamento da saúde da mãe biológica levou à intervenção da justiça, que o encaminhou a um orfanato quando ainda era bebê. Anos depois, na pré-adolescência, começou o processo de busca pela sua própria identidade. Ele foi atrás de sua família biológica, conheceu seus irmãos e soube do falecimento recente da mãe.

“Não lembro da época que fui visitar minha família biológica, mas me lembro perfeitamente que eu e meu irmão tínhamos os mesmos olhos”

O primeiro ato político do qual se lembra ter participado foi em 2014, no dia 15 de maio, data importante para sua família. (Foto por Ibrahim Khan)

Aos onze anos, depois de ter conhecido sua família biológica e ter passado por um processo de autorreflexão, decidiu assumir a herança cultural da família adotiva que o criou. Tomou para si as raízes e memórias libanesas da mãe e palestinas do pai. Foi então que pediu para que fosse renomeado com um nome árabe. Seu pai, como homenagem a um antigo amigo da sua infância, que faleceu em gaza, escolheu Mansour.

O primeiro ato político do qual se lembra ter participado foi em 2014, no dia 15 de maio, data importante para sua família. Anualmente, a Nakba, que significa “Desastre”, é rememorada pelo Mundo Árabe, principalmente pelos palestinos. O termo surgiu no começo da primeira guerra árabe-israelense, em 15 de maio de 1948, simbolizando a diáspora palestina que perdura até hoje.

Com o passar dos anos, Mansour se envolveu na causa palestina. Em 2021, criou um perfil no Instagram que denunciava as condições dos palestinos na Faixa de Gaza. Época que o Estado de Israel restringiu e controlou a entrada de vacinas contra a Covid-19 na região. As fronteiras, os espaços aéreos, marítimos e a circulação de bens em Gaza continuam controlados pelo governo israelense.

Hoje, com 28 anos, Mansour reconhece que a Palestina está presente em todas as camadas da sua vida. (Foto por Eduarda Duarte)

“Desde criança eu sempre tive essa afinidade com a identidade palestina. Isso faz parte de mim, e não adianta eu querer fugir”

Com a intensificação da ofensiva israelense na Faixa de Gaza, após os ataques do Hamas no dia 7 de outubro de 2023, Mansour começou a fazer discursos públicos contra a violência sofrida pelo povo palestino. Viajou pelo eixo sudeste-sul do Brasil, discursando em lugares como São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Santa Catarina.

Em 2024, junto de outros ativistas, fundou a Frente Palestina Livre de Santa Catarina, sendo eleito como delegado da Juventude Palestina e secretário de Relações de Movimentos Sociais. Entre o final de 2024 e início de 2025, Mansour organizou duas plenárias nacionais para o movimento.

Hoje, com 28 anos, Mansour reconhece que a Palestina está presente em todas as camadas da sua vida. Conheceu sua noiva, que é palestina, há dois anos, quando ajudou na formação de uma comitê do movimento no Rio Grande do Sul. Mansour, que além de ativista, é estudante de odontologia, apresentou seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) este ano, o tema abordado foi a saúde bucal da população palestina na Faixa de Gaza.

“Não é só pela libertação da Palestina, é também por Sudão, Congo, Mianmar. É uma luta contra o imperialismo. Enquanto povos inteiros continuarem sendo vítimas, a gente não vai parar”

Seu nome é Coumba Diatta. Ela é senegalesa, atravessou o Atlântico para estudar, por meio da literatura, o papel da mulher africana na formação de religiões de matriz africana, principalmente o candomblé. (Foto por Ibrahim Khan)

Na Biblioteca Universitária da UFSC, cercada por estantes de livros e por cochichos, uma mulher negra folheia Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves. Seu nome é Coumba Diatta. Ela atravessou o Atlântico para estudar, por meio da literatura, o papel da mulher africana na formação de religiões de matriz africana, principalmente no candomblé.

Nascida e criada em Dacar, capital do Senegal, Coumba não é candomblecista, é muçulmana. Para ela, estudar o candomblé não é um gesto de adesão religiosa, mas de reconhecimento ancestral. Ao observar as práticas no Senegal, país do oeste de Sahel e de maioria muçulmana, ela identificou continuidades culturais no Brasil que resistiram a escravidão.

Foi no ensino médio que Coumba teve o primeiro contato com a língua portuguesa. Como o Brasil é ausente nas bibliotecas senegalesas, ela aprendeu, primeiro, a versão europeia do idioma. Quando começou a estudar textos brasileiros, surpreendeu-se com a diferença latino-americana, e se sentiu tocada pelas questões raciais trazidas na literatura brasileira. Terminou seu mestrado ainda em Dacar e, em 2022, veio fazer o doutorado no Brasil.

Entre essas entidades está Coumba Loumba, figura espiritual associada ao mar, à fertilidade e às mulheres. A coincidência do nome com Diatta não passou despercebida, mas o que importa é a função simbólica que essa figura ocupa no imaginário lebu. (Foto por Eduarda Duarte)

“A maioria dos intercambistas, quando vão estudar, partem para a Europa. Então foi uma surpresa a todos quando eu escolhi o Brasil”

Como parte de seu doutorado, ela viajou até a Bahia. Lá, visitou terreiros e conversou com praticantes do candomblé. Coumba compartilha que surpreende outras pessoas ao afirmar que é muçulmana, mas ela diz que não considera isso uma contradição. No Senegal, o islamismo incorporou e tolerou práticas locais, em vez de buscar sua erradicação. É nessa convivência, entre diferentes camadas religiosas e culturais que ela identificou uma continuidade com o candomblé.

Na costa de Dacar vive o povo pesqueiro Lebu, majoritariamente muçulmano e marcado por ancestralidade espiritual. Entre essas entidades está Coumba Loumba, figura espiritual associada ao mar, à fertilidade e às mulheres. A coincidência do nome com Diatta não passou despercebida, mas o que importa é a função simbólica que essa figura ocupa no imaginário lebu.

Embora pertençam a contextos históricos e cosmológicos diferentes, é difícil não notar paralelos com a orixá Iemanjá, do candomblé, também vinculada aos mares, à fertilidade e às mulheres. Não se trata de afirmar uma identidade direta entre essas figuras, mas de reconhecer estruturas simbólicas similares, herdadas de matrizes africanas e reelaboradas em diferentes contextos. Essa é apenas uma das múltiplas raízes de continuidade cultural que Coumba investiga em sua pesquisa.

“Apesar de Senegal ter uma maioria muçulmana e uma minoria cristã, todos somos africanos, todos temos as mesmas raízes”

Ela, ao estudar o legado que essas pessoas deixaram, também busca pelas raízes de seu próprio povo e, inevitavelmente, as suas. (Foto por Eduarda Duarte)

Coumba não corresponde à imagem que muitos projetam de uma mulher muçulmana. No cotidiano não usa véu e não expõe visualmente sua fé, ela recusa a ideia de que a religiosidade precise ser constantemente exibida para ser legítima. Isso não significa um afastamento do islã, mas uma forma diferente de vivê-lo, moldada por contexto, trajetória e decisão própria.

A biblioteca está quase vazia, os últimos fios do sol atravessam a janela. Por um instante, a luz que reflete no seu vestido azul se espalha como água em movimento, um azul que remete a travessias antigas, feitas à força, e a outras, agora escolhidas. Ela, ao estudar o legado que essas pessoas deixaram, também busca pelas raízes de seu próprio povo e, inevitavelmente, as suas.

Ao se aproximar do fim do doutorado, Coumba encerra um ciclo sem pressa de anunciar o próximo. Em sua pesquisa, Coumba não busca por equivalências fáceis nem respostas definitivas, mas por continuidade e reconhecimento de si mesma. Ao ser perguntada sobre planos futuros, ela não fala em retornos, nem em novos projetos, vai esperar para ver. Como quem sabe que algumas travessias não se decidem antes do tempo.

“Uma obra que me chamou atenção neste meio tempo foi Quarto de Despejo. Quero muito ler quando terminar tudo, quando puder dedicar o tempo que ela merece”

O que se desprende do galho nem sempre se perde, rola pelo mundo, encontra raízes e traça o caminho de volta. Mansour Salum e Coumba Diatta não se conhecem, mas cada um luta para preservar uma história que não começou neles, apenas passa por eles.